vids


Typophile Film Festival 5 Opening Titles Brent Barson & outros
Produzido de forma completamente manual por professores e estudantes de design da Brigham Young University. Não foram utilizados quaisquer efeitos CG, o que demandou uma produção muito afinada e um trabalho bastante cuidadoso em termos de storyboard e de filmagem.


Tyger Guilherme Marcondes
Mescla diversas linguagens a fim de traduzir visualmente o tema geral do poema que serviu de base para o premiado curta. A técnica da marionete, com seus controladores à mostra, convive com o digital, que habitam o mundo real e situado (a cidade de SP). Tal mistura de técnicas é inusitada no sentido de que elas são duas linguagens tipicamente consideradas opostas, mas se integram no filme de tal forma que a coerência não é rompida. Destaque também para a trilha sonora, que se torna essencial para o tom misterioso e ligeiramente sombrio do vídeo.


Iron Woodkid
Este é um clipe dirigido pelo próprio músico. O vídeo retrata a força: para isso, conta com personagens inusitados, câmera PB e o recurso de cãmera lenta, que configura maior dramaticidade às cenas de movimento.


família

Os Excêntricos Tenenbaums é um filme bastante efetivo que parece definir muito bem a ideia do tragicômico. A obra contém todas as excentricidades autorais possíveis, como indicado em seu título, e os personagens são a grande força narrativa do filme. A análise a seguir falará um pouco mais sobre estas estranhas pessoas.

A relação da obra com o mundo da literatura é muito evidente; além da maioria dos personagens serem algum tipo de escritores, a divisão dos momentos dos filmes por capítulos é muito marcante e gera uma identidade muito forte para o filme. Os personagens sempre utilizam roupas semelhantes ao longo do filme, como se possuíssem seus próprios uniformes e estes os caracterizassem na tela. A surrealidade está presente em outros detalhes, como o local onde eles vivem, e nas situações que são pontuadas por momentos do irreal (como os táxis personalizados, por exemplo). Além disso, há também a presença de um narrador que une todos estes estranhos personagens.

A motivação do filme é bastante simples: Royal Tenenbaum decide tentar se reconectar com sua família. Os Tenenbaums são formados por pessoas em decadência; os filhos Chas, Richie e Margot, prodígios brilhantes na infância, vivem agora uma existência infeliz e insatisfatória, por uma série de razões. Há outros personagens que gravitam em torno dos Tenenbaums e estes acabam sofrendo também com o mesmo problema do potencial não alcançado pela família.

As neutras e excentricidades dos personagens os definem. Enquanto eles se posicionam como pessoas “cinzas”, não possuem maior profundidade e não sofrem maiores mudanças ao longo do filme. As questões destes personagens são trazidas à tona, mas nada acaba resolvido. A perda ou a falta de algo em suas vidas é algo que pesa em suas respectivas consciências mas no final, é difícil dizer se os personagens realmente mudaram, apesar deles de fato alcançarem algo no final do filme. As circunstâncias são novas, não suas essências. A natureza neurótica e disfuncional de cada um continua lá (os personagens em si se mantêm estáticos).

O interessante em Os Excêntricos Tenenbaums é o modo como a construção destes personagens profundamente problemáticos ainda é capaz de torná-los simpáticos ao público. Royal Tenenbaum, em diversos momentos, mostrou ser um pai inadequado (chegando a mentir para eles sobre ter câncer), mas ainda assim, a figura é muito interessante em suas interações. Os diálogos são particularmente interessantes, o que é essencial em um filme com tantas figuras inusitadas como este.


sonhos

sonhos

O filme Sonhos de Akira Kurosawa é um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, desde quando eu era pequena. Na época, era muito mais uma questão de sentir do que entender e, ainda que eu duvide que eu consiga compreender plenamente as intenções do diretor, talvez os anos tenham contribuído para um maior entendimento de minha parte deste grande filme. A morte e a condição humana como um tema geral que permeia todos os sonhos é um exemplo.

A emoção continua algo muito forte em Sonhos, claro. Nesta breve resenha, analisarei esta obra um pouco sob a ótica da fotografia, mas principalmente no que se diz respeito ao uso da cor.

O filme é dividido, como o título indica, em oito segmentos que representam os diversos sonhos do Akira Kurosawa. Em cada um deles, há um alter-ego que, além de representar o diretor, guia o espectador pelas ações na tela. Este personagem, nomeado de “I”, veste-se de forma neutra em relação ao sonho em que ele aparece.

um raio de sol através da chuva

No primeiro sonho, Um raio de sol através da chuva, a casa do garoto e seus arredores possuem tons em geral neutros, enquanto o ambiente natural possuem cores muito mais vibrantes; a cena do casamento das raposas também ilustra isso. Apesar de se tratar de um evento de tom solene e aparentemente sério, estas utilizam lenços de cores fortes na cabeça, enquanto trajam roupas de tons sóbrios, muito próprios de casamentos tradicionais. No momento final deste capítulo, há uma grande invasão da cor com o campo florido em uma cena que demonstra a utilização da cor como forma de expressão do diretor. Em combinação com a trilha sonora e o próprio roteiro, todo este conjunto cria uma cena muito forte não apenas no quesito visual, mas também no emocional.

o pomar dos pêssegos

Em seguida vem O pomar dos pêssegos, que dá continuidade à mesma lógica cromática do primeiro sonho. Na casa de “I”, os cômodos visualmente marcantes são os que comportam as bonecas (onde também estão as meninas de quimonos extravagantes) e o anterior a este, com a cerejeira, que ilumina e reflete o tom rosado pelo quarto. Novamente, a força aparece na natureza de rica coloração.

A Nevasca abandona esta abordagem, ao manter as cores muito contidas por conta da situação em que os personagens se encontram. Tanto o branco da neve como do quimono da mulher simbolizam a morte.

o túnel I

o túnel II

Numa das sequências mais sombrias, O Túnel traduz esta seriedade em tons cinzentos sem vida. Apesar disso ainda há um forte uso de contraste entre o azul (por exemplo, na pele dos soldados mortos) e o vermelho (na iluminação do cachorro). Todo o resto da sequência tem um estilo chapado e de cores bastante contidas.

corvos

Há um forte contraste entre os dois últimos sonhos e este, intitulado Corvos, o que apenas realça a cor deste último. A utilização da cor de Van Gogh e toda a sua tempestuosidade e conturbação têm muito a ver com a fotografia utilizada por Kurosawa em seus filmes, o que permite um paralelo interessante entre os dois artistas; o uso da cor e o trabalho com a imagem é essencial tanto para um, como para o outro.

monte fuji em vermelho I

monte fuji em vermelho II

Monte Fuji em Vermelho é o segundo pesadelo e a utilização das cores também segue uma lógica usual. O destaque fica por conta da coloração artificial das fumaças de radiação que ameaçam os personagens deste sonhos. Como um deles afirma,

A nuvem vermelha. É Plutônio-239. 10.000.000 de uma grama causa câncer. O amarelo é Estrôncio-90. Ele entra dentro de você e causa leucemia. A nuvem roxa é Césio-137. Afeta a reprodução. Causa mutações. Faz nascer monstruosidades.

A estupidez humana é inacreditável. A radioatividade era invisível, mas por conta de seu perigo, eles a coloriram. Mas isso só te faz saber qual tipo que o matou.

o demônio que chora I

o demônio que chora II

o demônio que chora III

O demônio que chora é uma continuação temática e estilística do sonho anterior, em que o mundo agora é um ambiente pós-nuclear de tons mortos e áridos. Uma fumaça branca é ocasionalmente vista nas cenas. O demônio encontrado por “I” possui farrapos como roupas, e um lenço vermelho desbotado ao redor do pescoço. Porém, surgem flores vibrantes e mutantes do chão, como um efeito colateral da radiação e assim, as cores voltam a ser reintroduzidas no âmbito do filme como um todo. Há também um tom forte de vermelho nas duas poças onde estão os demônios que choram.

o povoado dos moinhos

O Povoado dos Moinhos surge como a mensagem geral que não se deve perder de vista após as devastadoras sequências anteriores, ou mesmo como a ideia final que reside com espectador após o filme. As cores surgem extravagantes e em abundância e o tom é absolutamente alegre e festivo, apesar do sonho retratar um funeral. A morte não é necessariamente ou nem sempre algo a ser lamentado.


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música

A seguir, uma breve análise de 3 clipes do diretor Michel Gondry, que já fez Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Rebobine, Por Favor.

Massive Attack: Protection

O clipe começa com um visual sombrio de chuva e calçada, além dos ruídos de sirenes ao fundo, que se assemelha em tom a outros videoclipes da banda. A câmera, que desliza para dentro de um elevador de um prédio, então revela um homem com sua filha e a música começa.

Protection é rodado em uma tomada, focando e explorando o mundo particular de cada apartamento e seu habitante. A música dá uma sensação calma e de segurança, como a própria música diz (“I’ll stand in front of you / I’ll take the force of the blow“) e as situações mostradas em cada sala se alternam entre o cotidiano, como a mãe tentando fazer a criança descer da cadeira para comer, e o surreal, quando, nesta mesma cena, é possível ver outra criança por uma janela andando no teto. De qualquer forma, tanto a música como o visual consegue gerar uma impressão relaxante de familiaridade com tudo o que se passa no clipe.

Daft Punk: Around the World

Em Around the World, o diretor Michel Gondry aproveita o estilo dance e retrô, próprio do Daft Punk, para compor o visual do clipe. Cada um dos grupos de personagens do clipe representam um som ou um instrumento diferente e por isso, o clipe inteiro é baseado na coreografia dos personagens, que por sua vez, é uma tradução visual da música da banda. Desta forma, este aspecto visual conversa totalmente com a linguagem própria do Daft Punk, não apenas em seu âmbito musical, mas também em relação à sua imagem e tudo o que eles representam.

The Chemical Brothers: Let Forever Be

O conceito trabalhado por Gondry neste clipe é o da constante transição do cotidiano da personagem principal em um estado onírico, numa transição em que ela se desdobra em 6 outras versões dela mesma, que seguem uma coreografia um tanto orgânica (não são meras repetições de uma só mulher, mas várias mulheres interpretando as cópias). O diretor alcança este efeito de caleidoscópio através de uma técnica visual que constantemente muda as cenas entre as ilusões e a mulher original.

Aos poucos, as ilusões vão tomando conta do mundo e da vida real da mulher, que está ciente de seus “devaneios” e das proporções que eles acabam por tomar. O baterista, que é usado como uma espécie de marca visual da música, também sofre do mesmo efeito e marca o ritmo da coreografia das cenas em caleidoscópio.


dissociação

cisne negro

Cisne Negro é impressionante em todos os aspectos de sua produção: atuações afinadas, belíssima fotografia, trilha sonora e edição de som incríveis e uma direção muito bem pontuada marcam a obra, e o texto a seguir se aprofundará em uma análise estética do filme, com spoilers a respeito da trama.

Conforme Cisne Negro acompanha Nina (Natalie Portman), uma bailarina recentemente promovida ao papel de Odette / Odile em uma nova produção do clássico Lago dos Cisnes, percebemos claramente a fragilidade da personagem. Ainda que Nina seja fantástica no papel da pueril Odette, é ao encarnar a gêmea má Odile em que todas as suas inseguranças residem. Seu inconsciente vai se tornando cada vez mais brutal em meio ao desgaste psicológico que ela sofre, e Nina passa a ter visões dissociativas cada vez mais frequentes e perturbadoras.

Logo no começo da projeção, é fácil perceber esta dualidade; enquanto Nina traja roupas brancas, por exemplo, seu “alter-ego imaginário” se veste negro, em uma clara alusão à própria trama do balé em que ela atua. Sua inabilidade em interpretar Odile com a paixão necessária, em grande parte devido à repressão sexual que sofre de sua mãe, a leva a visões de mutilação e faz com que ela passe a projetar este seu alter-ego em Lily (Mila Kunis), uma nova bailarina que parece ser o exato oposto de Nina e, claro, é perfeita como Odile.

As câmeras acompanham Nina em todos os seus movimentos, muitas vezes em closes e tomadas rápidas, que tendem a demonstrar a natureza cada vez mais paranoica e insegura que a personagem adota conforme seu antagonismo em relação à Lily aumenta. Entre as duas, há mais uma vez há o reforço entre o branco vs. preto, presente em todo o filme.

Os espelhos, tão comuns na carreira de uma bailarina, são utilizados de forma muito interessante no filme. A fim de reforçar cada vez mais o desequilíbrio e a dissociação da personagem principal, os reflexos de Nina passam a ganhar vida própria, como sombras que a perseguem constantemente. Assim, Lily, que aparenta ser um “reflexo contrário em vida real” de Nina, passa a se tornar tanto atraente, como intimidante para Nina. A partir do momento em que Lily a encoraja a se soltar, a protagonista passa a abraçar um outro lado seu, e liberta-se de seu sufocamento sexual. Com isso, o “alter-ego” passa a ganhar cada vez mais controle sobre o seu corpo.

O ato final é ótimo a medida que demonstra como a protagonista finalmente abraça completamente a personagem Odile, o que inclui o assassinato de Nina (em um paralelo com a trajetória de Odette). Os movimentos de câmera conturbados que a seguem em um ritmo frenético durante a dança demonstram a diferença entre a interpretação muito mais sedutora que Nina agora é capaz de apresentar como Odile.

O filme é repleto de metáforas visuais também. A transformação de Nina em um pássaro começa com um ferimento nas costas, suas pernas dobrando até a apresentação, em que ela ganha penas negras e sua sombra (reflexo) é a de um pássaro. Há também um constante balanço entre os elementos de horror (ferimentos, sangue) e o balé, com movimentos de grande beleza.

Por fim, talvez teria sido interessante uma condução um pouco mais sutil em relação às metáforas, por exemplo, mas isso não enfraquece o filme e é uma característica muito presente em outras obras do diretor, Darren Aronofsky. De qualquer forma, Cisne Negro é um filme que vale muito a pena ser visto e é com certeza, um dos grandes destaques do ano.


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