sonhos

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O filme Sonhos de Akira Kurosawa é um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, desde quando eu era pequena. Na época, era muito mais uma questão de sentir do que entender e, ainda que eu duvide que eu consiga compreender plenamente as intenções do diretor, talvez os anos tenham contribuído para um maior entendimento de minha parte deste grande filme. A morte e a condição humana como um tema geral que permeia todos os sonhos é um exemplo.

A emoção continua algo muito forte em Sonhos, claro. Nesta breve resenha, analisarei esta obra um pouco sob a ótica da fotografia, mas principalmente no que se diz respeito ao uso da cor.

O filme é dividido, como o título indica, em oito segmentos que representam os diversos sonhos do Akira Kurosawa. Em cada um deles, há um alter-ego que, além de representar o diretor, guia o espectador pelas ações na tela. Este personagem, nomeado de “I”, veste-se de forma neutra em relação ao sonho em que ele aparece.

um raio de sol através da chuva

No primeiro sonho, Um raio de sol através da chuva, a casa do garoto e seus arredores possuem tons em geral neutros, enquanto o ambiente natural possuem cores muito mais vibrantes; a cena do casamento das raposas também ilustra isso. Apesar de se tratar de um evento de tom solene e aparentemente sério, estas utilizam lenços de cores fortes na cabeça, enquanto trajam roupas de tons sóbrios, muito próprios de casamentos tradicionais. No momento final deste capítulo, há uma grande invasão da cor com o campo florido em uma cena que demonstra a utilização da cor como forma de expressão do diretor. Em combinação com a trilha sonora e o próprio roteiro, todo este conjunto cria uma cena muito forte não apenas no quesito visual, mas também no emocional.

o pomar dos pêssegos

Em seguida vem O pomar dos pêssegos, que dá continuidade à mesma lógica cromática do primeiro sonho. Na casa de “I”, os cômodos visualmente marcantes são os que comportam as bonecas (onde também estão as meninas de quimonos extravagantes) e o anterior a este, com a cerejeira, que ilumina e reflete o tom rosado pelo quarto. Novamente, a força aparece na natureza de rica coloração.

A Nevasca abandona esta abordagem, ao manter as cores muito contidas por conta da situação em que os personagens se encontram. Tanto o branco da neve como do quimono da mulher simbolizam a morte.

o túnel I

o túnel II

Numa das sequências mais sombrias, O Túnel traduz esta seriedade em tons cinzentos sem vida. Apesar disso ainda há um forte uso de contraste entre o azul (por exemplo, na pele dos soldados mortos) e o vermelho (na iluminação do cachorro). Todo o resto da sequência tem um estilo chapado e de cores bastante contidas.

corvos

Há um forte contraste entre os dois últimos sonhos e este, intitulado Corvos, o que apenas realça a cor deste último. A utilização da cor de Van Gogh e toda a sua tempestuosidade e conturbação têm muito a ver com a fotografia utilizada por Kurosawa em seus filmes, o que permite um paralelo interessante entre os dois artistas; o uso da cor e o trabalho com a imagem é essencial tanto para um, como para o outro.

monte fuji em vermelho I

monte fuji em vermelho II

Monte Fuji em Vermelho é o segundo pesadelo e a utilização das cores também segue uma lógica usual. O destaque fica por conta da coloração artificial das fumaças de radiação que ameaçam os personagens deste sonhos. Como um deles afirma,

A nuvem vermelha. É Plutônio-239. 10.000.000 de uma grama causa câncer. O amarelo é Estrôncio-90. Ele entra dentro de você e causa leucemia. A nuvem roxa é Césio-137. Afeta a reprodução. Causa mutações. Faz nascer monstruosidades.

A estupidez humana é inacreditável. A radioatividade era invisível, mas por conta de seu perigo, eles a coloriram. Mas isso só te faz saber qual tipo que o matou.

o demônio que chora I

o demônio que chora II

o demônio que chora III

O demônio que chora é uma continuação temática e estilística do sonho anterior, em que o mundo agora é um ambiente pós-nuclear de tons mortos e áridos. Uma fumaça branca é ocasionalmente vista nas cenas. O demônio encontrado por “I” possui farrapos como roupas, e um lenço vermelho desbotado ao redor do pescoço. Porém, surgem flores vibrantes e mutantes do chão, como um efeito colateral da radiação e assim, as cores voltam a ser reintroduzidas no âmbito do filme como um todo. Há também um tom forte de vermelho nas duas poças onde estão os demônios que choram.

o povoado dos moinhos

O Povoado dos Moinhos surge como a mensagem geral que não se deve perder de vista após as devastadoras sequências anteriores, ou mesmo como a ideia final que reside com espectador após o filme. As cores surgem extravagantes e em abundância e o tom é absolutamente alegre e festivo, apesar do sonho retratar um funeral. A morte não é necessariamente ou nem sempre algo a ser lamentado.



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